
[…] E a parte quase engraçada da história, eu acordo de manhã depois de ter dormido apenas três horas, tomo banho, coloco uma roupa e vou até o supermercado que fica a meio quarteirão aqui de casa, e então pego um carrinho, dou um bom-dia pro segurança, escolho as marcas de minha preferência, peso as verduras, pago a conta e saio de lá sem ninguém desconfiar de que sou um fantasma, de que sou uma fraude, de que não sou eu que estou ali, estou apenas levando meu zumbi pra passear, pegar um ar e cumprir certas obrigações domésticas, já que algumas pessoas aqui em casa precisam se alimentar, enquanto eu assisto comer, abismada com a fome do mundo. Uma sorte eu ser dessa época, o século dos individualistas, ninguém mais se atém ao rosto dos outros, quem saberia dizer a cor dos olhos do seu melhor amigo? Um exército numeroso de invisíveis, e eu me valho nessa invisibilidade para sair de casa como se eu fosse uma mulher em total domínio dos meus atos e sentimentos, uma criatura confiável que não vai estacionar na vaga para os paraplégicos nem esquecer de trancar a porta do carro e que vai até sorrir de volta para a conhecida que lhe deu um cumprimento quando se cruzaram no corredor dos enlatados. Tudo bem? , ela me pergunta. Tudo bem. Hoje está um dia assombrosamente calmo e eu quase me lembrei de como era a vida quando eu estava viva. Martha M
Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou “o que foi?” - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: Andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: A perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro - Mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - Essa pessoa - continua vivo, há então uma morte anormal. O nunca mais de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter nunca mais quem morreu. E dói mais fundo - Porque se poderia ter, já que está vivo. Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: never. Caio F
O amor termina apenas para aquele que morre: quem sobrevive dedica-se a um breve luto e depois volta para vida - e voltar pra vida quase sempre significa voltar a amar. Sendo assim, aos poucos fui relaxando e aprendendo que somos aptos a amar muitas vezes, de formas diferentes. Amamos A, amamos B, amamos C , e por alguns nem era amor, e sim entusiasmos, e sabe-se lá quantos entusiasmos somos capazes. Amores para sempre, até segunda ordem. […] No entanto, uma parte infantil e longínqua de mim absolve esses obstinados que acreditam que o verdadeiro amor sobrevive na presença e na ausência, e mesmo que isso resulte em histórias triste e antiquadas, por outro lado possuem uma sinceridade que comove como nenhum amor, hoje em dia, comove mais. Martha M

A vida voa na sua cara, esbarra no seu rosto, suja sua vaidade, corrompe suas certezas, e você não pode fazer nada. A não ser lavar o rosto e começar tudo de novo. Tati B

Eu quero que você me ensine a ser uma mulher melhor para você. Ao mesmo tempo, eu quero que você suma porque eu só quero ser uma mulher pra mim. Eu me quero só pra mim. Era a minha dor de ser solitariamente para mim. E você a substituiu pela dor de não querer mais ser solitariamente só para mim. Mas tudo é dor afinal, e eu não sei ser leve, eu não sei voar. Tati B

Converse. Respire. Pense em garotos. Pense em xampus. Vamos. Não fique louca. Mude de assunto. Pense na menina mais bonita do mundo e odeie. Dê nome pra loucura que ela deixa de ser. Sinta dor com nome que assusta menos. Caia na aula de educação física, rale o joelho, sangre, dói menos. Desembarace os cabelos e sinta que problemas se alisam. Faça o papel do Bis virar um barquinho. Isso. Conte uma piada. Se os outros rirem bastante. Se a sua estranheza puder ser amada. Qualquer coisa menos loucura. Pense naquela música da rádio. Não, você não está triste. Uma fofoca e pessoas em volta. Vá até o banheiro retocar o batom da moranguinho. O professor mais ou menos bonito, por ele. Os outros. Olhe. Os outros. Vamos. Que data mesmo? Da guerra. Que data? Qualquer coisa. Menos louca. O hino. Sujou um pouquinho da meia. Limpinha. Dê nome aos problemas. Problemas com nomes são problemas e não loucuras. Sempre evitando que ela saia. Sempre segurando. Não caia dura no meio do mundo. Não se chacoalhe no meio do pátio. Não vomite só porque sei lá o que é isso impossível de digerir e nem quero saber. Não abrace sem fim porque é preciso sentir o vento com o peito sozinho. Terrível mas tem banho quente pra distrair. Não espanque, não soque, não chore sangue, não arranque a língua, não grite, não acabe. Siga. Sorria. Mais uma prova. Mais uma festa. Mais um garoto. Sempre um pavor escondido mas nem era nada disso. Sempre uma tristeza abafada mas nem era nada disso. Sempre uma alegria exagerada que ninguém acolhe e o silêncio depois, fazendo curativos na pureza criando cascas. Um dia você será. O quê? Normal. Um dia você será. Normal. Um dia. Tati B
Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão por que uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados. (Osman Lins - in Morangos Mofados, Caio Fernando)

(…) Meu cabelo está sujo, faço um rabo de cavalo, não troquei as flores da sala, ontem era o dia em que elas chegavam frescas na loja, mas me esqueci de passar pra comprá-las, as pétalas mortas das flores da semana passada estão caídas no chão, alguém precisa varrer. Pego um livro de psicologia, sei que há muitos trechos ali sublinhados, frases que destaquei alguns anos atrás, tento resgatá-las para saber se ainda fazem sentido, se conversam comigo, mas elas não me dizem mais nada, preciso ler outros livros, buscar consolo em ideias recém-escritas, talvez eu encontre algo que me faça rir, que consiga distrair meus pensamentos sem muito esforço, ou então eu deva ir ao cinema, mas só de pensar em escovar os dentes, passar um batom, pegar o carro, não, nem pensar, estou absolutamente sem energia pra tanta atitude, estou magra e pesando 200 quilos, um corpo afundado no sofá que virou uma espécie de alto-mar, o sofá que não me abraça, apenas me sustenta, me mantém à tona, mas não estou triste, e tampouco alegre, não estou sentindo nada, pode jogar água fervida no meu peito, eu não vou gritar, eu não vou levantar, eu não estou aqui, ninguém está me vendo, eu não estou me vendo. Por mim, sumiriam os espelhos da casa, e a tevê pode estar sintonizada em qualquer canal, nenhum deles me fiz a atenção, não lembro se estou de calcinha, se troquei de calcinha, e não me depilo há alguns dias, não preciso de pernas sedosas, não preciso de lingerie, eu só preciso respirar - inspira, expira - isso ainda consigo fazer porque é inconsciente, hábito, costume, tudo o que me exige reflexões eu dispenso. Martha M

Hoje eu acordei sem nada no estômago, sem nada no coração, sem ter para onde correr, sem colo, sem peito, sem ter onde encostar, sem ter quem culpar. Tati B

Às vezes você é tão bobo, e me faz sentir tão boba, que eu tenho pena de como o mundo era bobo antes da gente se conhecer. Eu queria assinar um contrato com Deus: se eu nunca mais olhar para homem nenhum no mundo, será que ele deixa você ficar comigo pra sempre? (…) Eu olhei para você com aquela sua jaqueta que te deixa com tanta cara de homem e me senti tão ao lado de um homem, que eu tive vontade de ser a melhor mulher do mundo. E eu tive vontade de fazer ginástica, ler, ouvir todas as músicas legais do mundo, aprender a cozinhar, arrumar seu quarto, escrever um livro, ser mãe. (…) Eu preciso disfarçar que não paro mais de rir, mas aí olho pra você e você também está sempre rindo. Se isso não for o motivo para a gente nascer, já não entendo mais nada desse mundo. (…) Você me transformou no eufemismo de mim mesma, me fez sentir a menina com uma flor daquele poema, suavizou meu soco, amoleceu minha marcha e transformou minha dureza em dança. Você quebrou minhas pernas, me fez comprar um vestido cheio de rendas e babados, tirou as pedras da minha mão. Você diz que me quer com todas as minhas vírgulas, eu te quero como meu ponto final. Tati B.